Segunda-feira, 22 de julho de 2019   
 
 
 
 

22 de agosto de 2012
Onça-pintada: a hora da extinção ou da preservação

Onça-pintada morta observada por criança indígena. O felino já praticamente não existe mais na Mata Atlântica.
Foto Marcello Casal Jr./ABr

Por Reinaldo Canto*

Um animal elegante, admirado pelo seu porte e beleza e ao mesmo tempo temido e odiado ao longo de muitas gerações de humanos que habitaram o continente americano. Povos originários e depois os colonizadores europeus conviveram com este que é o maior felino das Américas de maneira, no mínimo, pouco amistosa.

Essa difícil relação, de amor e ódio, trouxe consequências bastante danosas para a sobrevivência da onça-pintada que, em sua fase adulta, pode atingir 140 quilos de peso. Símbolo da riqueza de nossa biodiversidade, ela estampa a nota de 50 reais, nem por isso está livre de incontáveis perseguições.

Acusada de atacar o gado e outros animais de criação, fazendeiros não pensam duas vezes para abatê-la. É também cobiçada por caçadores ávidos em provar sua virilidade mesmo mantendo uma segura distância, portando uma conveniente arma de fogo. Esses, além da destruição de nossas floresta,s estão entre os principais obstáculos que tornaram a onça-pintada, de grande predador no topo da cadeia alimentar em animal acuado e indefeso diante do progresso e da ganância humana.

Agora duas notícias em direções opostas colocam novamente a onça-pintada em evidência.

A primeira refere-se a um estudo recentemente publicada na revista PLoS ONE pela Universidade inglesa East Anglia. O artigo constatou que, ao lado de outros 4 mamíferos, a onça está praticamente extinta da Mata Atlântica. Segundo as conclusões, a Onça como outros médios e grandes mamíferos possuem reduzida possibilidade de sobrevivência em pequenos fragmentos de floresta tropical, justamente o que ocorre com nossa Mata Atlântica, retalhada que está por aglomerados urbanos, propriedades particulares de terra e grandes estradas que cortam suas áreas.

Se a tudo isso somarmos os caçadores, madereiros e fazendeiros, podemos afirmar que nossas Onças tem muito pouco a esperar do futuro. Mas na verdade, qual o problema que uma extinção total iria acarretar?

Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, o biólogo Carlos Peres, da Universidade East Anglia, afirmou: “Não teremos florestas saudáveis em perpetuidade se não pudermos contar com os serviços de predação e dispersão de sementes”. Para os desavisados, portanto, a onça desempenha papel fundamental para o equilíbrio ambiental de nossas florestas e, consequentemente, de todos os serviços ambientais usufruídos por nós seres humanos.

Projeto Onçasafari, uma nova realidade no Pantanal

A outra notícia, mais alvissareira, vem de outro habitat da onça-pintada, o Pantanal. E se houver esperança para o animal e sua preservação ainda representar algo lucrativo para o ser humano? Ao invés de elimina-lo para diminuir os prejuízos, preservar a onça para obter ganhos.

Para os criadores do Projeto Onçafari, isso é totalmente possível. De que maneira? Colocando o Pantanal brasileiro na rota dos grandes safáris de observação do planeta.

Assim define otimista em poucas palavras, o idealizador dessa empreitada, o ex-piloto de Fórmula Renault, Fórmula 3 Inglesa e Indy, Mario Haberfeld. Como? Piloto de corrida? Pois é, Haberfeld mesmo antes de correr era um aventureiro e amante da natureza. Chegou mesmo a pensar em montar um hotel na África. Mas depois de encerrar a carreira e avaliar possibilidades, pensou melhor: por que não no Brasil?

Sua amizade com Roberto Klabin, presidente das SOS Mata Atlântica e SOS Pantanal, além de proprietário do Refúgio Ecológico Cayman, no Pantanal, possibilitou a montagem do plano. A escolha da Cayman para o início do projeto foi simples. Nessa área de 53 mil hectares, a caça é proibida e em grandes espaços totalmente preservados. Até mesmo a presença de cachorros foi vetada para não prejudicar a fauna local. E, claro, ali já haviam onças-pintadas. “Rodei o mundo conhecendo projetos de conservação e vi que era possível trazer essa ideia para o Pantanal e encontrei na Cayman o local certo para implantá-lo”.

De ameaça a lucros

Para concluir pela viabilidade do projeto, Haberfeld visitou diversos parques em que a preservação de leões e leopardos, animais historicamente muito mais temidos que a nossa onça, que hoje são uma realidade no continente africano e fonte de renda para muitas famílias. “Afinal, ao fazer um safári na África, qual o animal que mais se deseja ver, uma girafa ou um leão?”, pergunta o idealizador do Onçafari. Ele mesmo responde: “Claro que é o Leão e aqui não seria diferente. A onça-pintada estaria no topo desses desejos”.

Se foi possível na África, nada impede que a experiência seja replicada no Brasil. Obviamente todo um trabalho que está apenas começando terá de vencer uma série de paradigmas, entre eles, a resistência dos pecuaristas. Sendo a principal atividade econômica do Pantanal, a pecuária há muitos anos faz fazendeiros e onças viverem um conflito permanente. Será mesmo a onça uma grande ameaça ao gado pantaneiro?

Segundo pesquisa realizada pela ONG Instituto Onça-Pintada, a resposta é não! Os dados levantados pelo estudo apontam que, eventualmente, as onças atacam rebanhos para se alimentar, mas são poucos e muitas vezes mortes de animais são injustamente contabilizados como sendo responsabilidade do felino.

O Projeto Onçafari é ambicioso, pois ele se inicia no Refúgio Cayman e nas fazendas próximas para a avaliação dos hábitos e quantidade de onças existentes na área, mas também tem a pretensão de servir como modelo de preservação sustentável a ser replicado por todo o Pantanal, e quem sabe, ser replicado para outros ecossistemas brasileiros. Assim como em outros projetos semelhantes ao Onçafari, a preservação do felin0 tem o mérito de servir como um mecanismo de preservação geral de toda a fauna pela via do ecoturismo.

Como explica Mario Haberfeld, assim como acontece na África, o turismo ecológico por meio da manutenção de uma Indústria de Observação de Animais gera empregos e desenvolvimento, preserva espécies e causa um impacto pequeno se comparados a outras atividades tradicionais.

O trabalho certamente é e continuará sendo bastante árduo. Convencer a população pantaneira e pecuaristas de que a onça é um bom negócio já não é tarefa fácil, mas o projeto quer também convencer as onças-pintadas de que o homem não é tão ameaçador assim. Os integrantes do Onçafari têm buscado se aproximar dos animais por meio de um monitoramento permanente. No futuro, assim como acontece em parques naturais ao redor do mundo, os grandes mamíferos, inclusive os mais ferozes e arredios, começam a enxergar o homem como uma presença natural.

O sucesso desse projeto está intrinsecamente ligado a importantes mudanças de visão e percepção, para quem sabe em algum dia não muito distante, sermos capazes de ao vislumbrar uma onça-pintada majestosa em seu habitat natural, enxergar muito mais que um animal, mas toda a verdadeira riqueza e patrimônio da biodiversidade brasileira.

Toda a força ao Onçafari!

  Arquivo
12/07/2019
Diálogos Envolverde – Bioeconomia
28/06/2019
Diálogos Envolverde – Bioeconomia
02/05/2019
Municipalistas querem cidades produtivas e antenadas com o século XXI
04/04/2019
Inteligência artificial desperta fascínio e temor no Brasil, diz pesquisa
25/02/2019
São Paulo ainda patina no setor ambiental
21/02/2019
Do flagelo ao empreendedorismo: Encontro Nacional revela um semiárido brasileiro repleto de projetos inovadores
14/01/2018
No meio ambiente, a leve sensação de uma volta ao passado
12/12/2018
COP 24: Estamos trocando a realidade pela ficção
23/11/2018
A tragédia de Mariana em aberto
26/10/2018
O sol que castiga o sertão é realidade como fonte de energia na Paraíba
19/07/2018
Nossa vida não é feita de plástico: recuse canudos
16/07/2018
Gente que faz a sustentabilidade no dia a dia
12/06/2018
FICA 2018: Sons únicos do Passado e sua melancólica extinção
06/06/2018
Renováveis sim, Alternativos não!
18/05/2018
Novo milênio derruba alguns dos valores do século 20
17/04/2018
O assédio na América Latina e a reação das brasileiras
16/04/2018
Coordenadora do Limpa Brasil fala do problema gerado pelo lixo
13/04/2018
Biocicla mostra como ir do lixo ao luxo da transformação
22/03/2018
Rio Doce, um desastre anunciado e inovação na recuperação
08/03/2018
O mundo encantado dos youtubers
08/02/2018
Sinergias entre cidades e empresas apontam caminhos para o futuro
04/01/2018
Um ano realmente novo ou seguiremos na mesma batida da irracionalidade?
27/11/2017
Ação empresas contra o desmatamento é fator de proteção ao lucro
 

2011 ~ 2018 - EcoCanto21
Reinaldo Canto
Todos os direitos reservados - www.ecocanto21.com.br
32 usuários online

Desenvovido por Tecnologia