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17 de fevereiro de 2014
Ninguém segura Ricky Ribeiro
O respeitado especialista em mobillidade urbana luta contra a paralisia do seu corpo.

Por Reinaldo Canto*


Ricky Ribeiro. Os músculos ficaram frágeis, mas a tenacidade para melhorar o mundo ao redor está mais forte.
Fotos: Arquivo pessoal

Afetado pela ELA, Ricky Ribeiro dirige a Mobilize Brasil, portal dedicado à locomoção nas grandes cidades.

Ricky Ribeiro nunca foi de ficar parado. Pedalava, corria, praticava esportes, normalmente rodeado de amigos. Fora alguma contusão decorrente do esforço físico ou dos choques naturais das atividades esportivas, o exercício lhe fazia bem. Até que, aos 28 anos, algo estranho aconteceu. Durante uma pelada, Ribeiro caiu e teve a sensação de perda de controle dos músculos. De início, não se preocupou tanto, mas o quadro piorou, ele decidiu procurar um médico e descobriu sofrer de Esclerose Lateral Amiotrófica, doença degenerativa conhecida como ELA (a mesma do astrofísico britânico Stephen Hawking).

Com o apoio da família, o paulistano não cedeu à depressão. Decidiu aproveitar o tempo que lhe resta em vez de se render à doença. “Em primeiro lugar, busquei formas de combater a ELA e aproveitei bastante cada momento em que não estava em tratamento. Fiz curso de fotografia, estudei política, visitei parques e encontrei meus amigos.” Todas as suas respostas neste texto foram enviadas por e-mail, a partir de um computador adaptado às suas atuais necessidades, pois ele não consegue mais falar.

É uma batalha contra a imobilidade. No início, Ribeiro valia-se de um andador. Mais tarde, precisou ser transferido para uma cadeira de rodas. Sua força continuou a diminuir, até perder por completo os movimentos. As dificuldades em se deslocar em uma cidade como São Paulo, cheia de obstáculos para quem não consegue se locomover com facilidade, levou o administrador formado pela Fundação Getulio Vargas a canalizar seu drama para uma atividade social e política. Em 2011, Ribeiro criou o portal Mobilize Brasil (www.mobilize.org.br), dedicado ao debate sobre a mobilidade urbana. Em pouco tempo, o site tornou-se uma referência, por reunir dados a respeito do tema no País e no mundo, publicar estudos inovadores, facilitar o diálogo de especialistas e interessados no assunto e promover campanhas pelo direito dos cidadãos.

Mesmo antes de descobrir a doença, Ribeiro deixava transparecer um espírito público incomum na sua geração. Depois de um mestrado em Sustentabilidade na Espanha, ele retornou ao Brasil e fundou com colegas a Abaporu, associação especializada em projetos de educação, cidadania e cultura. A experiência na Europa foi fundamental para amalgamar sua visão de mundo. “Pude constatar que a qualidade de vida das pessoas pode ser infinitamente maior em uma cidade com uma disposição urbana inclusiva, que valoriza os espaços públicos, estimula a convivência social entre diferentes grupos e classes e prioriza os meios de transportes públicos e não motorizados. Depois de usufruir, durante dois anos e meio, desse estilo de vida, comecei a estudar o assunto e a vislumbrar maneiras para melhorar a vida das pessoas nas cidades brasileiras.”

Aos 33 anos, mesmo limitado pelo desenvolvimento da doença, Ribeiro permanece na ativa. Trabalha de oito a dez horas por dia. “O Mobilize tem ocupado praticamente todo o meu tempo disponível, a não ser durante as duas seções diárias de fisioterapia e uma de fonoterapia. Só tenho conseguido me dedicar a outras atividades eventualmente um pouco antes de dormir, quando leio coisas de meu interesse ou vejo um filme, e em boa parte dos fins de semana, quando recebo visitas.”

Além do fundador, o portal tem sete funcionários, entre eles sua mãe, Cristina Ribeiro. Ex-diretora de uma empresa em São Paulo, ela mudou sua vida por causa da fatalidade e hoje divide-se entre o tratamento do filho e o Mobilize. Ela evita descrever suas angústias. “Ele não reclama de nada. Não serei eu que farei isso.” Segundo a mãe, Ribeiro é obcecado por números e essa característica tem contribuído para o site se tornar uma importante fonte de pesquisa, até para o setor público. Recentemente, o prefeito de Manaus apresentou um plano de recuperação das calçadas após a cidade receber as piores notas em uma campanha criada pelo Mobilize, o “Calçadas do Brasil”.

Ribeiro não perde a esperança. Baseia-se no fato de até agora ter vencido os prognósticos fatídicos que lhe davam um tempo menor de vida. Espera recuperar os movimentos e usufruir das conquistas defendidas pelo Mobilize, da possibilidade de viver em uma cidade onde seja pleno o direito de ir e vir. “O portal trouxe um novo sentido para mim, mais um grande motivo para seguir lutando pela vida.” Se depender de fibra, seu futuro será longo.

 
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