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16 de março de 2016
A crise hídrica acabou, Alckmin?
Ao alardear uma suposta segurança no abastecimento, governador
atrapalha conscientização e contribui para agravar a crise no médio prazo

Alckmin em inauguração de obra do Sistema Guarapiranga, em julho de 2015: sua declaração foi irresponsável
(Foto:
Daniel Guimarães / A2)

por Reinaldo Canto

A temporada de chuvas trouxe um momentâneo alívio sobre a dramática situação do abastecimento de água em São Paulo. Estão aí as tragédias recentes das enchentes e municípios como Francisco Morato para comprovar que sem chuva temos um problema e, com elas, outro.

Fato é que logo as chuvas de março vão fechar o verão e a sua ausência irá provocar, como de praxe, uma estiagem. Ela poderá ser mais fraca do que nos últimos anos ou seguir uma trajetória de poucas precipitações. Em todos os cenários, a cautela e o bom senso deveriam prevalecer, pois o sufoco pelo qual a Região Metropolitana de São Paulo passou deixou muita gente sem água e trouxe, inclusive, sérios prejuízos econômicos.

Temos razões mais do que suficientes para nos mantermos alertas quanto a essa questão, mas eis que o governador Geraldo Alckmin (PSDB) anuncia de maneira esfuziante, o fim da crise do abastecimento de água em São Paulo.

Entre as suas várias afirmações, Alckmin foi categórico. “Essa questão não tem mais risco, mesmo que haja seca”, e foi mais longe: “Teremos a partir do ano que vem uma superestrutura em São Paulo. A região metropolitana estará bem preparada para as mudanças climáticas”.

A declaração é totalmente irresponsável, fora de propósito e mentirosa.

Entre muitas das razões para condenar esse tipo de declaração está a necessidade de engajamento da população para adotar ações de economia de água. Essa é uma das questões levantadas em nota publicada pela Aliança pela Água, movimento de organizações da sociedade civil que acompanha de perto a crise hídrica paulista.

“A declaração feita em 7 de março é prematura, mostra visão equivocada sobre segurança hídrica e pode induzir aumento do consumo”. Outro ponto importante destacado pela nota é de que mesmo reconhecendo a recuperação dos mananciais graças às chuvas de verão, “ainda estamos distantes de atingir um nível seguro”.

Para a Aliança pela Água, a situação de hoje é sim melhor do que a encontrada nesta mesma época em 2014 e 2015, mas ainda muito pior do que era entre 2010 e 2013, período anterior à crise.

Os números levantados pelo movimento não deixam dúvidas. Em 2013, o Sistema Cantareira possuía 57% de sua capacidade, enquanto atualmente está em apenas 28,7% de seu volume operacional. Se comparado a 2010, os números ficam ainda mais preocupantes, pois o Cantareira estava com 97% de sua capacidade no início de março daquele ano. O Sistema Alto Tietê também apresenta dados semelhantes: está hoje com 39,5%, mas estava com 59,7% em 2013 e 93% em 2010.

As obras de infraestrutura apontadas como redentoras pelo governador também devem ser questionadas, pois se referem a uma série de transposições em bacias cujas consequências, como a retirada significativa de grandes volumes de água, são desconhecidas e que, portanto, poderão acarretar em importantes impactos socioambientais, principalmente nas áreas e regiões originárias afetadas por essas obras.

A resposta sempre esteve na mudança de hábitos e no melhor uso dos recursos naturais, a questão da falta d´água só deixou isso mais claro para os milhões de moradores de São Paulo e região.

Um trabalho gradual sobre o compartilhamento das responsabilidades e o exercício pleno da cidadania, pressupostos básicos da sustentabilidade, seguia seu caminho de maneira mais lenta que o ideal, mas surtiu até aqui seus efeitos conscientizando as pessoas, as empresas e o setor público.

Essa declaração do governador paulista tem um forte potencial desmobilizador. Ela retira da sociedade seu protagonismo ao transmitir a falsa onipotência de sua administração para resolver isoladamente uma questão tão séria e preocupante como essa.

A visão paternalista e autocrática de tomar decisões deveria ter sido sepultada em definitivo no século passado, mas infelizmente somos ainda obrigados a conviver com dirigentes públicos que acreditam ser capazes de, unilateralmente, agir em nome de todos e para todos. A gestão da água é apenas um exemplo dessa visão limítrofe e antiquada.


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