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22 de março de 2018

Rio Doce, um desastre anunciado e inovação na recuperação

No dia 5 de novembro de 2015 a bacia do Rio Doce entrou para a história
como vítima do maior desastre ambiental envolvendo a mineração no Brasil

Por Reinaldo Canto

Quando a barragem de Fundão se rompeu, 62 milhões de toneladas de rejeitos minerais da empresa Samarco em Mariana escorreram sobre a vida de milhares de pessoas nos distritos da cidade histórica, ceifando as vidas de 19 pessoas e causando o maior desastre ambiental do país, levando sua lâmina vermelha até o Oceano Atlântico, com ameaça aos mais delicados ecossistemas marinhos.

Entre as muitas medidas acordadas para penalizar, responsabilizar e exigir recuperações e mitigações socioambientais foi criada a Fundação Renova em agosto de 2016.

Para presidi-la foi chamado um profissional conhecido nos meios ambientais, o biólogo e administrador Roberto Waack, já havia passado por organizações como WWF, Instituto Ethos e Fundo Brasileiro para a Biodiversidade, entre outros.

A missão não parecia nada fácil, mas Waack aceitou o desafio e neste um ano e meio já fez com que a Renova investisse em ações sociais e ambientais a quantia de R$ 3,2 bilhões.


Roberto Waack, presidente da Fundação Renova

A Fundação Renova participa do 8º Fórum Mundial da Água para contar um pouco de sua história e dessa complexa e difícil tarefa de minimizar os prejuízos causados pelo desastre.

Desde o início de nossa conversa Roberto Waack já avisa, a Fundação faz parte do acordo de ajustamento de conduta e, portanto, não responde pela Samarco, muito pelo contrário: “a Samarco responde criminalmente e isso não é algo que diga respeito à Renova”. O presidente da fundação refere-se ao termo que coloca a fundação como: “ente responsável pela criação, gestão e execução das ações de reparação e compensação das áreas e comunidades atingidas pelo rompimento da barragem do Fundão”, conforme detalhado no seu site institucional.

Waack conta que os desafios da fundação tem sido muito grandes: “a parte técnica e operacional, por exemplo, enfrentam questões nunca antes vivenciadas, como deixar ou não os sedimentos no leito do rio. Existem técnicos que consideram melhor a retirada do material e outros afirmam o contrário”.

Ele diz que esse não é o mais difícil de toda a enorme complexidade socioambiental da Renova, mas sim a governança: “temos mais de 240 pessoas envolvidas em 11 câmaras técnicas”, além é claro de muitas reuniões com as comunidades afetadas. “O modelo participativo é mais demorado, mas sem dúvida alcançam melhores resultados”.

Tanto que do conselho gestor da fundação chamado de interfederativo participam representantes de órgãos ambientais dos três níveis federativos (federal, estaduais e municipais), além do Ministério Público. Waack destaca que, “com certeza, é um dos maiores programas de monitoramento já montados no país”.

Roberto Waack acredita que alguns importantes avanços foram conseguidos durante esse ano e meio de atuação da Renova, mas sem a ilusão de que se possa festejar qualquer conquista. Mesmo que as ações de reparação já tenham recebido aportes de R$ 3,4 bilhões distribuídos em 42 programas e projetos, que vão da restauração ambiental com plantio de milhares de hectares, a recuperação de nascentes, a manutenção da qualidade da água na bacia do Rio Doce, a retomada da atividade econômica dos municípios afetados e o reassentamento e indenizações de pessoas, entre outros, as dimensões do desastre não permitem comemorações.

Para o presidente da Fundação Renova algumas frentes avançaram melhor que outras. Caso do monitoramento da qualidade do Rio Doce, “nos níveis que eram antes do desastre, inclusive com relação a sua turbidez” e lembra que a situação não podia ser considerada boa antes do rompimento da barragem, “80% dos esgotos das cidades já eram despejados diretamente no rio”.

O que o executivo considera que avançou pouco foi a questão do reassentamento das famílias e parte das indenizações, “houve contaminação nas discussões, ódio da fundação, o que considero bastante justificável diante das perdas que essas famílias sofreram”. Mas Waack espera que a questão das indenizações esteja resolvida até o meio do ano.

De qualquer maneira ele considera que o começo foi mais difícil não foi fácil para as pessoas entenderem que a Renova não é a Samarco e a Samarco não é a Renova. “Quando começamos assumimos um grande passivo de comunicação, obviamente não havia como achar algo bom. Eu entendo perfeitamente às reações da sociedade e da mídia”. Ele só se ressente das muitas acusações e cobranças aos funcionários e gerentes da Samarco, “acho que não é justo com as pessoas que se envolveram, entraram no meio da lama para tentar ajudar”.

E ao participar do Fórum Mundial da Água que tipo de mensagem a Renova deixa? “Esse formato da Fundação de ampla participação, onde a sociedade se organiza tem muito a oferecer. Acreditamos que esse formato seja único no mundo.”

Ele exemplifica: “caso houvesse algo como a Renova em Petrópolis e Teresópolis após os desmoronamentos ocorridos anos atrás, a história poderia ter sido outra”. Waack se refere ao desvio de recursos, a precária situação em que as famílias ficaram e depois a repetição dos mesmos problemas.

Talvez, segundo o executivo, o modelo que está sendo testado para a recuperação do Rio Doce e no apoio e diálogo com a sociedade, de uma fundação para gerir os recursos e as ações, possa servir como modelo para esse tipo de ação.

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