Segunda-feira, 15 de outubro de 2018   
 
 
 
 

13 de abril de 2018

Biocicla mostra como ir do lixo ao luxo da transformação

Por Reinaldo Canto

A velha máxima de Lavousier: nada se cria tudo se transforma ainda não foi devidamente absorvida no Século XXI. As empresas em sua maioria ainda acreditam que descartar é algo normal, coisa que se faz desde o início do capitalismo no já distante final do Século XIX. Nada mais longe da verdade. Afinal, o mundo é redondo e tudo que se usa aqui no planeta irá permanecer para o bem ou para o mal. Isso significa que ao descartar algo mesmo que de maneira correta quase sempre não terá bons resultados. No mínimo são materiais que vão ser despejados em aterros sanitários quase todos atingindo o limite de sua capacidade para receber diariamente toneladas de resíduos que poderiam ter outros fins, outras utilidades.

Pensando nisso, a administradora de empresas formada pela Fundação Getúlio Vargas e consultora de estratégia e comunicação para sustentabilidade, Jamile Balaguer Cruz, criou a Biocicla, empresa de Economia Circular que gerencia a transformação de uniformes usados em peças novas como bolsas, estojos, sacos de dormir, entre outros, chamados de upcycling (termo em inglês que define a transformação de materiais usados para outras finalidades).

Envolverde – Por que você teve a ideia de criar a Biocicla?

Jamile Balaguer – A geração de lixo no planeta sempre me incomodou. Existem muitos materiais que são descartados sem que se dêem a eles a oportunidade de terem novos usos. Muitas vezes são coisas que podem ter perdido a sua função original, mas que se forem trabalhadas de maneira correta, poderão ser úteis novamente, sem que precisem ir parar num aterro sanitário ou mesmo num lixão e ficar se deteriorando. Ninguém se beneficia com isso e, na verdade, podemos perder muito com essas ações de descarte, pois existem materiais que ao serem descartados podem contaminar o solo, os mares, lençóis freáticos e afetar a saúde de pessoas e animais que tiverem contato direto com elas.

Por essas, entre outras razões, criei a Biocicla que tem a função de transformar itens descartados contribuindo para fazer a chamada logística reversa, que cuida para materiais voltarem para a cadeia produtiva.

E – Como você define a Biocicla?

JB – Somos uma empresa da Economia Circular que busca tratar os resíduos sólidos atendendo o que é determinado pela PNRS (Política Nacional de Resíduos Sólidos, Lei 12.305/2010). Emitimos todos os documentos que as empresas devem deter para comprovar o tratamento dos seus resíduos.

Procuramos fazer um trabalho forte de educação ambiental para conscientizar empresas sobre a necessidade de se fazer o tratamento adequado de seus resíduos evitando ao máximo o descarte de materiais, que se não puder servir para o seu próprio negócio, possam ser úteis para outras empresas.

E – Como surgiu a ideia da transformação de uniformes usados?

JB – Eu cresci brincando embaixo de maquinas de costura pois meu avô tinha uma fábrica de guarda chuvas, e desde criança eu e minha prima inventamos brinquedos e acessórios com os retalhos do tecido de nylon recortados. Aprendi as primeiras peças upcycling nas oficinas de costura do Rotary, até que chegou o momento na minha vida profissional de consultora e iniciei o Projeto REFORME de Gestão de Resíduos Sólidos para a empresa GOCIL tratando dos seus uniformes descartados mensalmente. Desenvolvo este trabalho há 2 anos em parceria com a consultoria Biotera.

E – E quais os benefícios desse trabalho?

JB – Contribuímos diretamente com 6 ODS – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável do Pacto Global da ONU. São benefícios sistêmicos, pois oferecemos uma solução socioambiental integrada. No tratamento dos resíduos contribuímos com o desenvolvimento local gerando renda para costureiras de baixa renda e jovens com deficiência intelectual que trabalham na confecção das novas peças. Desenvolvemos também ações sociais, de educação e arte no aproveitamento das peças. Para isto, temos parceria com organizações sociais e de saúde como a CLASA e o NUPE em Santo André.

E – Que tipo de empresas vocês conseguem atender?

JB – Podemos atender empresas que trabalhem com banners e uniformes descartados, mas também é possível analisar outros tipos de materiais. Basicamente eles precisam ser suficientemente maleáveis como estofados, por exemplo, para possibilitar a transformação em peças que produzimos envolvendo máquinas de costura. Várias empresas já desenvolvem este trabalho como a Volkswagen, TAM, Scania, FedEx e outras.

E – Mas nem todo o tipo de material recebe o mesmo tratamento?

JB – Isso mesmo! Na verdade temos três situações distintas. Na primeira são essas peças upcycling produzidas pelas costureiras como ecobags e brindes ecológicos distribuídos para clientes, empregados e parceiros. A segunda opção é fazer a reforma das peças para doação para a população carente ou revenda como uniformes de segunda mão. E a terceira opção é reciclar as peças com a trituração e aproveitamento em outros processos. O publico tem valorizado cada vez mais esta consciência e práticas das empresas.

E – Quanto de material vocês já conseguiram reciclar e em números quais os benefícios já alcançados?

JB – Desde o início do nosso trabalho, demos tratamento a 39 toneladas de uniformes descartados evitando a emissão de 737 Kg de CO2 que eram gerados com a incineração das roupas. Foram produzidas 5.480 peças upcycling distribuídas como brindes ecológicos, 20 toneladas de roupas doadas para população carente, 750 peças reformadas e revendidas, 100 casaconecas (jaquetas saco de dormir) doadas para população em situação de rua, realizadas oficinas de artes com 125 jovens vulneráveis e o restante das peças foram recicladas com trituração para transformação em estopa.

E – Por fim, com toda essa sua experiência como está o nível de consciência das empresas quanto os impactos causados por suas atividades?

JB – Existem vários níveis de consciência e de não consciência no meio empresarial. Na Biocicla já fomos procurados por empresas que tem bastante consciência do que o descarte de uniformes pode causar e, portanto, nos consultam sobre a melhor maneira de fazê-lo. Existem aquelas que buscam soluções de Economia Circular e/ou são empresas signatárias do Pacto Global da ONU buscando gerenciar seus impactos e indicadores de resultados socioambientais. Mas também aparecem aquelas que querem apenas se livrar desses materiais pouco importando qual a destinação que irão receber com tanto que eles não sejam penalizados.

De fato, o certo é que a cada dia clientes, consumidores e parceiros estão sabendo identificar as melhores empresas para se relacionar. O futuro de muitos negócios irá depender dessa tomada de consciência para sua própria sobrevivência.

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